Não pedale junto ao meio-fio!

Ao contrário do que muitos acreditam (inclusive pessoas ignorantes sobre o assunto que ousam falar dele na grande imprensa) o ciclista não deve pedalar próximo ao meio-fio, o ideal é que ele ocupe pelo menos 1/3 da faixa da direita, ou da faixa da esquerda se for fazer uma conversão à esquerda. Existem diversas boas razões para isso. Vou utilizar esse post para compilá-las com a idéia de espalhar o conhecimento sobre o que é um comportamento seguro para ciclistas urbanos.

Eis os motivos para não pedalar próximo ao meio-fio:

1) O trecho junto ao meio fio é onde a pavimentação das ruas é mais irregular, com buracos, bocas-de-lobo e acúmulo de lixo (como cacos de vidro) que representam riscos ao ciclista e podem fazê-lo cair;

2) Ao pedalar muito perto do meio-fio, o ciclista não têm área de manobra. Se tiver que desviar de um buraco, por exemplo, o ciclista não poderá ir mais para a direita, por causa do meio-fio e será obrigado a passar por dentro do buraco, podendo cair, ou desviar bruscamente para a esquerda, o que é perigoso pois pode estar vindo um carro atrás e não prever a manobra do ciclista. Da mesma forma, se for fechado por um carro e o ciclista estiver muito próximo ao meio-fio, ele vai ter que escolher bater no carro ou na calçada, enquanto que se estiver mais à esquerda, poderá chegar um pouco mais para a direita, aumentando o espaço entre a bicicleta e o carro;

Com a bicicleta muito rente à margem direita da pista, não há espaço de fuga. Mantendo a linha do 1/3, você mantém espaço para fugir do homicida.

3) Pedalar muito próximo ao meio-fio encoraja motoristas a ultrapassarem o ciclista na mesma faixa de rolamento. Se o ciclista está espremido no canto, o motorista pode achar que tem espaço suficiente para fazer a ultrapassagem sem mudar de faixa, desrespeitando o artigo 201 do Código de Trânsito que exige que automóveis mantenham a distância mínima de 1,5m de bicicletas;

Mantendo a extrema direita, os carros forçam passagem e põe o ciclista em risco. Ocupando um espaço maior da pista, eles são obrigados a aguardar o momento certo e ultrapassar com segurança.

4) Ao pedalar muito próximo do meio-fio o ciclista fica menos visível a motoristas que estejam aguardando em um cruzamento ou saindo de garagens. Motoristas que desejam entrar na via ou atravessá-la não costumam procurar por bicicletas junto ao meio-fio, eles olham para o meio da rua para ver se há outros carros vindo. Ao pedalar mais para a esquerda, você fica mais visível a esses motoristas;
5) Se houver carros estacionados ao longo do meio-fio é importante manter uma distância segura para evitar acidentes com portas que podem se abrir de repente. Esse é um dos acidentes mais comuns com ciclistas.

Mas e a Lei?

O que o Código de Trânsito diz sobre essa prática? Estou infringindo alguma lei?

O CTB diz que devemos utilizar o “bordo”, definindo-o apenas como “margem da pista” sem dizer até onde vai essa margem. Portanto, não estamos infringindo nenhuma lei de trânsito. É importante considerarmos como bordo o espaço suficiente para que tenhamos segurança na condução de nosso veículo.

Por estes e outros motivos, em São Paulo a CET (empresa que controla o trânsito) recomenda que os ciclistas ocupem a faixa da direita ao invés de pedalarem colados ao meio-fio: http://vadebike.org/2011/06/cet-sp-recomenda-que-ciclista-ocupe-a-faixa/ e em Porto Alegre a EPTC recomenda que os motoristas troquem de faixa ao ultrapassar ciclistas: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2011/08/eptc-instala-placas-na-avenida-ipiranga-e-garante-que-obras-de-ciclovia-comecam-em-setembro-3431020.html

Contribuições e trechos do post retiradas do blog Vá de Bike.

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18 respostas para Não pedale junto ao meio-fio!

  1. airesbecker disse:

    Ótimo trabalho Marcelo!
    Observamos o texto do desembargador aposentado na ZH.
    De uma ignorância extrema.

  2. Olavo Ludwig disse:

    Perfeito! Eu só chamaria a atenção em relação a faixa da esquerda quando se deseja fazer uma conversão. Eu só aconselho usar esta faixa se o ciclista estiver com uma velocidade igual ou maior ao dos carros, e isto ocorre algumas vezes, mas em avenidas largas tipo a Ipiranga é mais difícil, então fique na direita e use as sinaleiras para fazer a conversão. A manobra de conversão a esquerda é bem arriscada, logo só faça se tiver uma boa experiência em pedalar no trânsito e quando sentir que é seguro.

    • Claudio disse:

      É isso Olavo. Quando a faixa tranversal é larga e com movimento, prefiro fazer o que alguns chamam de “fazer o quadrado” (na realidade é um L) que é seguir reto até cruzar a rua, depois, aguardar o sinal correto, para entao prosseguir.

  3. Jeferson disse:

    Importante postagem. Quando eu era um ciclista iniciante, costumava andar rente ao meio-fio. Faz anos ando mais para dentro da pista. Uma das vantagens é que posso sempre fazer manobras à direta para desviar de buracos, garrafas, galhos de árvores, cacos de vidro, pedras etc. Fazer manobras bruscas à esquerda, quando o trânsito é intenso, pode ser fatal. Por outro lado, quando o trânsito está trancado ou então naquele pára, anda, pára, anda, eu vario. Sigo atrás dos carros, acompanhando sua velocidade, no meio da pista. Quando o trânsito pára, pego o meio-fio e sigo assim, até entrar de novo para o meio do tráfego, na melhor oportunidade. É possível fazer bastante contato visual com motoristas e eles geralmente são bem amigáveis (Porto Alegre, pra variar, foi a cidade onde mais grosseria e estupidez eu enfrentei). Não sei se esse é o jeito mais correto de andar em situações de muito trânsito. Fui pegando com a experiência. Se alguém tiver dicas, posta aí.

    • Olavo Ludwig disse:

      É isso ai Jeferson, quando tranca não tem jeito, o negócio é pegar um “corredor” ou rente ao meio fio ou entre os carros (muito cuidado com as motos) o que não dá é ficar parado atrás respirando aquela poluição. MAS novamente muito cuidado nos momentos de pegar o “corredor” e também na hora de voltar mais para o meio da pista.

    • Rafael Zart disse:

      Legal ler isso. Faço exatamente a mesma coisa e achava que estava errado, sendo imprudente por ficar alternando os movimentos. As vezes noto que os motoristas ficam nervosos quando o transito começa a andar novamente e eu saio do corredor do meio-fio em direção ao miolo da faixa.

  4. Larry Witt disse:

    Com certeza esse desembargador aposentado não é um ciclista urbano e ainda por cima um baita de um desinformado.
    Escrever na Lero Hora levando em conta apenas uma interpretação totalmente bitolada da lei foi de uma incontestável pequenez de espírito.
    Se essa lei diz que eu devo me colocar em risco no cantinho da rua então que se dane a lei e o legislador incompetente que a criou. Assim fica Impossível não ser um desobediente civil.
    O sujeito que interpreta de forma rígida, uma lei caduca e preconceituosa como essa, que coloca o mais frágil do trânsito em situação de risco de vida, só para favorecer a pressa de um único modal, é que deveria ser considerado um criminoso. Essa lei é no mínimo anti-democrática, preconceituosa e elitista; só me faz ter mais certeza de que vivemos em uma falsa aristocracia.

  5. Legal! Os segundos e terceiros motivos são os mais importantes na questão da segurança. Tem que ter área de manobra porque parece que fora de um cruzamento os acidentes mais comum acontecem quando o ciclistas está na lateral de um veículo. Choques traseiro são muito mais raros. Parece também que é bem mais difícil morrer de um choque traseiro do que lateral. Alguns casos de atropelamentos fatais recentes e famosos mostraram exatamente que as pessoas morrem atropeladas quando o ciclista se encontra ao lado do veículo, por omissão do motorista. O motorista não sabe o que ele está fazendo. Ele não sabe muito que ele está colocando a vide do ciclista em perigo. Muitas vezes ele não percebe isso. Em muitos casos, é importante o ciclista realmente tem que se impor quase no meio da faixa. Um fato importante não mencionado aqui é a diferença de velocidade entre o veiculo automotor e o ciclista. Quando o ciclista ocupa uma pista, ele induz o motorista a mudar de pista ou frear até ter uma velocidade próxima da velocidade do ciclista. Isso pode não agradar o motorista especialmente se ele estava andando numa velocidade muito maior do que o ciclista. É sempre importante o ciclista monitorar a velocidade do carro que vem para trás. Sempre faço isso e mesmo se um motorista mostra que ele não quer desacelerar, com o espelho podemos ficar ocupando a pista mais e ver se o motorista está blefando e já desacelerou um pouco ou se realmente ele não quer desacelerar e vai atropelar a gente de qualquer jeito. Eu evito a todo custo avenida onde os veículos andam em alta velocidades mas frequentemente os motoristas não respeitam a velocidade máxima etc… Em 3000 km em Vitória, só aconteceu uma única vez ver um motorista de caminhão que não queria frear enquanto eu ocupava uma pista. Olhei no retrovisor, não teve jeito, nunca desacelerou, contiunuou andado e buzinando. Saí da pista, tive que para na calçada e deixei ele passar. As vezes tem que deixar passar! Eu uso uma técnica de ondulações/simulação de desequilíbrio para sensibilizar os motoristas no momento certo, ou seja, quando tem o tempo suficiente para ele frear tranquilamente mas nem tanto tempo para ver que eu estou simulando tudo…. Está dando certo. É baseado na bondade do Brasileiro quando vejo uma situação de perigo, acidente. Ele esquece talvez que “a rua é dos carros” e em vez de pensar que “esse maldito ciclista está ocupando minha pista e como não quero frear ele tem que sair da pista”, ele se sensibiliza e pensa instintivamente “caraca parece que esse cara vai cair, vou atropelar ele” ou, se o cara realmente não tem respeito nenhum com os ciclistas “caraca parece que esse imbecil vai cair na minha frente, se eu não frear vou ter que atropelar ele e vou perder mais tempo ainda” e imaginando um possível acidente respeita mais o ciclista… Desacelera…
    Eu acho que precisamos entender a cabeça dos motoristas mais perigosos para elaborar estratégia segura até com esse tipo de motoristas.

  6. Melissa disse:

    Não pedalar com a roda pertinho do meio-fio é a segunda dica mais importante que dou para ciclistas iniciantes. A única mais importante, pra mim, é não pedalar na contramão. Parabéns pelo texto, Marcelo.

  7. Thiago disse:

    É muito mais seguro não pedalar na sarjeta mesmo. E o CTB ainda deixa outra brecha: ele fala de “bordos da pista”, o que não é sinônimo de “bordos da faixa”. Pista e faixa (de rolamento) são duas coisas diferentes. Então “bordo da pista” pode ser o “meio da faixa” sim (em ruas com mais de uma faixa)

    • Aldo M. disse:

      Muito bem observado, Thiago. Eu sabia que a interpretação era essa mas não tinha observado a diferença crucial entre os termos. Aliás, não guardar uma distância segura dos bordos da pista é infração de trânsito,

  8. Almor67 disse:

    Olá,
    Achei ótima a matéria, mas infelizmente acho que na prática isso não funciona. Sou do Rio de Janeiro e tenho o hábito de pedalar junto ao meio fio. Já me aborreço constantemente fazendo isso, gente buzinando, tirando fino, reclamando, etc. Se padalasse mais no meio da rua, acho que nem estaria aqui escrevendo esse post. Infelizmente não há respeito algum, com certeza já teria sofrido algum acidente. Abraços a todos. almor67

    • Marcelo disse:

      Almor,
      As pessoas tiram menos fino de mim quando estou mais pro meio da pista.

      Aqui em Porto Alegre são poucos os que reclamam, mas se querem reclamar que reclamem, o mais importante é a nossa segurança, não a satisfação do motorista.

      • Almor67 disse:

        Marcelo,
        Farei uns teste, mas uma coisa é fato. As pessoas da região Sul, de um modo geral, são bem mais educadas que os cariocas.
        Abraços,

    • Olavo Ludwig disse:

      Outra coisa, as buzinas normalmente são para avisarem que estão passando, se estiveres mais para o meio da rua eles não passam se não forem para outra faixa, é claro que é importante um espelho para ver estar sempre dando uma olhada para o que vem por trás, além de olhar melhor quando tiver ir mais para esquerda. Desde 2007 pedalo diariamente e apenas uma vez vi um ônibus fretado de empresa vindo numa velocidade que pensei que não conseguiria parar, ai fui pra a calçada. É fato que quando os motoristas te enxergam eles não passam por cima.

  9. Fabiana disse:

    Faz sentido! Mas em vias rápidas é complicado. A que velocidade anda um ciclista? Numa via com velocidade máxima de 60km, o motorista deve andar no mínimo a 30… Claro que isso não justifica que passe por cima do ciclista, mas uma bicicleta devagar não estaria sendo um obstáculo ao trânsito?

  10. Arrmando disse:

    Posso estar errado, mas acredito também que andar muito próximo ao meio-fio sujeita o ciclista em caso de queda bater com a cabeça na quina deste, possibilitando um traumatismo craniano. Ao menos na minha infância ouvi relatos sobre tal acontecimento.

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