Um Prefeito de bicicleta

Na verdade são muitos. A impressão social de que bicicletas representam um status inferior (expressos pelos rótulos de vagabundos, por exemplo) é coisa muito brasileira. Em grande parte do resto do mundo, essa relação não é feita, ou já foi quebrada. E então as bicicletas passam a ser vistas como o que são, uma possibilidade concreta de transporte que muda a relação dos seus usuários tanto com a cidade como consigo mesmos.

Nesse sentido, vemos mais e mais políticos ao redor do globo defenderem a ideia de que a bicicleta é a opção mais sustentável de trafegar pela urbe. E isso é lindo de ver: não são pessoas que apenas vivem isso de forma pessoal, ou mesmo ativistas das bicis, mas sim sujeitos que estão em posições de tomadas de decisão, posições de autoridade, e que defendem esse ponto de vista por um olhar simplesmente estratégico do que significa, hoje em dia, viver em uma cidade.

Em Porto Alegre, o que temos escutado das pessoas nesses mesmos lugares (nossas autoridades) é que eles não podem fazer uma escolha sem pressão pública, porque automaticamente terão de lidar com a pressão pública oposta. Isso gera um problema sério. Afinal, se estamos imersos em um sistema que não tem ajudado as pessoas a viverem bem, ainda assim é possível que os sujeitos desse sistema não se dêem conta disso. A cultura carrocêntrica, que traz o carro como principal modal de transporte, está muito bem engendrada no paradigma social do carro como bem estar, como destaque, como status. As propagandas de automóvel continuam mostrando uma pessoa que entra no Carro X e então magicamente vê-se dirigindo por uma cidade vazia. Um problema ético, já que quanto mais Carros Xs houverem circulando, mais difícil será dos mesmos circularem “livremente”. Portanto, esse é um sistema que não ajuda nem seus próprios agentes.

Temos que continuar trabalhando por uma mudança da cultura, por uma mudança da dita opinião pública, por pressão social. Sim. Mas ao mesmo tempo, temos que levar essa discussão para um ponto de vista estratégico. E isso talvez exija das pessoas que estão nas posições de autoridade que ajam de uma forma mais corajosa do que me parece estão acostumadas – quando jogam a responsabilidade de suas decisões (mesmo as técnicas) no lado da balança no qual a opinião pública mais pesa.

Ações corajosas como a do Prefeito de Copenhagen, Frank Jensen, que, em São Paulo para o C40 Summit (reunião dos Prefeitos das maiores cidades do mundo), foi dar voltas de bici para ver como é a cidade. A conclusão? “Senti medo”, disse. E então, junto aos Prefeitos de Portland e Santiago, traçou os benefícios que investimentos no modal das bicicletas podem trazer, e o quanto suas cidades tem apostado nesses investimentos.

Prefeito Jensen (dir.) em Copenhagen - foto retirada de blog sobre segurança das e nas bicis (clique na foto)

É isso aí, Sr. Jensen. Nós aqui em Porto Alegre também sentimos um pouco de medo às vezes. Mas a clareza a respeito do quanto as magrelinhas fazem bem (pra gente, pra comunidade, pra natureza) traz um gostinho tão melhor que, com estrutura ou não, estamos felizes da vida de pedalar por aí!

Veja a matéria completa sobre o Prefeito Jensen em SP na Revista Exame
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Uma resposta para Um Prefeito de bicicleta

  1. Olavo Ludwig disse:

    Coragem José Fortunati! E venha participar da massa :)

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